17 de maio de 2011

Zé. Simplesmente Zé !

O Zé, movido pela loucura do crédito fácil, chegou a uma situação catastrófica onde os ganhos já não chegam para fazer frente aos gastos. A família do Zé encontra-se agora à beira do colapso, e já nem os bens alimentares mínimos são uma certeza para eles.
Aflito, e sem ter como solucionar a situação pelos seus próprios meios, o Zé decidiu pedir ajuda ao seu Patrão.
Solícito como sempre, o Patrão perguntou-lhe :

- Ó Zé, então diz-me lá rapaz, quanto é que tu deves ao todo, que é para eu te emprestar o dinheiro para tu resolveres a questão ?
- Patrão, ao todo devo 100.000€, com uma taxa de juro de x%
- Epá ! isso é massa como o caraças ! Mas deixa lá que eu vou ver o que te posso fazer.

O Zé lá foi para casa, coraçãozinho apertado, na esperança de que o Patrão o pudesse ajudar naquela hora tão difícil.
No dia seguinte o Patrão manda chamar o Zé.

- Olha Zé, estive a analisar o teu caso, e penso que te posso ajudar.
- Ai Patrão, Deus o ajude, diga lá então como é que vai ser ?
- Fazemos assim Zé, eu empresto-te o dinheiro todo que precisas e tu abates de imediato as tuas dívidas junto dos credores.
Mas temos de combinar aqui duas ou três coisitas.

1º Dado que te estou a emprestar o dinheiro todo, hás de compreender que eu te cobre juros no valor de x+y%. Onde x é o valor que já pagavas anteriormente aos credores, e y … olha, considera o y como o meu spread pá !

2º Dado que te estou a ajudar agora, os aumentos anuais que eu te dava, ficam congelados para os próximos 3 anos.

3º Uma vez que te estou a dar a mão, tens de aceitar que a partir de agora o teu horário de trabalho passe das 40 horas semanais, para aquelas que forem precisas, sabes que estamos cheios de trabalho e eu conto contigo para fazer a empresa andar para a frente.

O Zé, encantado com a amizade do seu Patrão, e livre que se via naquele momento dos credores que até ali o perseguiam, nem pensou duas vezes.
Aceitou prontamente as condições propostas e lá seguiu para o seu posto de trabalho.
No dia seguinte, pela manhã, dirigiu-se aos bancos e empresas de crédito e saldou todas as suas dívidas.
Quanto despachou o último desses assuntos, o Zé sentia-se outro, o ar da rua era mais leve, e a felicidade estava estampada no seu rosto.
Durante aquele 1º mês, a vida do Zé era outra, mais feliz, desafogado, o Zé encarava agora a vida com outros olhos.
Os problemas (re)começaram precisamente quando recebeu o 1º ordenado já nas novas condições que o Patrão lhe propusera.
Automaticamente o Patrão tinha feito os descontos do empréstimo no seu ordenado, e foi só aí que o Zé percebeu que afinal lhe sobrava ainda menos dinheiro que nos meses anteriores.
Aflito, começou finalmente a ver que aquela ajuda do Patrão era bem capaz de lhe ter estragado ainda mais a vida.
O que fazer ? pensou o Zé.
Já sei ! vou arranjar um 2º emprego, trabalho como um doido, mas hei de arranjar maneira de pagar o que devo.
Mas logo se lembrou que essa solução se tinha tornado impossível desde que o Patrão o ajudou. Então ele agora passou a entrar às 7:00, e raras têm sido as vezes que sai de lá antes das 21:00.
Que diabo ! como é que eu resolvo isto ? pensava o Zé.

A verdade é que não resolveu, a situação tornou-se insustentável e o Zé não resistiu a tanta pressão. Sucumbiu ontem, pelas 21:30 quando regressava a casa.
O médico legista diz, no relatório da autópsia, que a causa da morte se deve a níveis elevados de stress, cansaço acumulado extremo, má nutrição e problemas respiratórios graves provocados pela inalação de químicos usados na fábrica do seu Patrão.

p.s.
para melhor compreensão deste texto recomenda-se que :
1 - Onde se lê Zé, se passe a ler, Portugal.
2 - Onde se lê Patrão, se passe a ler, FMI/UE/BCE.

18 comentários:

  1. O PS era escusado...

    PS: ler a nota anterior em todos os sentidos...lol


    Pobre Zé. Pelo menos valeu um texto irónico e bem escrito:)

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  2. M. o PS é sempre escusado, mesmo :-))))

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  3. Ora agora é que tu fizeste um post bem "pintado"!
    Está mesmo demais! Mas digo-te que o Zé de tanta lavagem cerebral, prefere morrer de fome, do que votar nos Partidos que o possam defender. Tenho-te a dizer que o Zé vai ter o que quer, depois de tanta abstenção e por outro lado, a dar primazia ao seu carrasco! Que Zé fomos arranjar!
    Para mim o Zé é mesmo o povo. Sofre de ignorância e de uma certa cobardia!

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  4. Fada, este Zé tem levado sempre muito tempo a reagir, é histórico.
    Desta vez, o que me preocupa é que o Zé está a levar ainda mais tempo do que é costume a reagir.

    Há que ir passando a mensagem, uma vez e outra, e outra, e outra, até que ela chegue a quem tem de chegar.

    Ainda ontem, no debate do Jerónimo com o Sócrates, quando o assunto foi BPN e a privatização da sua dívida, para que sejamos todos a pagar o roubo que apenas alguns fizeram, foi visível o mau estar e a forma airosa como Sócrates se furtou à resposta.

    É preciso ser "muita Zé" para ainda papar grupos destes !

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  5. Eduardo... bastou-me a entrevista a Jerónimo na TSF... e hoje a do Louçã! ou o Zé anda a dormir, ou então é um cagaço inexplicável... ou gosta de ser papado!... Apre! ... e não é só o Sócrates! Olha o senhor dos Passos! quer privatizar as águas de Portugal... enfim, tudo o que puderem e que dê lucro!
    Isto é de outro planeta!

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  6. Juntei-me ao velório
    ... "rezo" para que este cristo
    também ressuscite

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  7. Fada, aqui há uns tempos atrás, estava eu à espera que o meu filho saísse da Escola, e ouvi a conversa (sou um cusco) de duas fulanas.
    Dizia uma :

    - Olha, já o meu Pai votava no PS e eu, infulenciada por ele, também votei sempre PS.
    É uma questão de hábito, estás a ver ?

    E dizia a outra :
    - Pois eu cá nunca votei em nenhum deles, que a mim nunca eles me deram nada !

    Perante isto ...

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  8. Rogério, antes de mais, seja bem vindo, aqui ao chegatequi, não ao velório, que esse nós dispensávamo-lo de bom grado.

    As únicas rezas que conheço para resuscitar este Zé, são :

    1-Votar bem (equivalente a 10 Pais Nossos)
    2-Ser um cidadão participativo e activo. Não esperar que resolvam por ele (equivalente a algumas 100 Avé Marias).
    3-Produzir bem nas suas funções profissionais (equivalente a ir à missa todos os dias)
    4-Ser honesto, consigo, com os outros e com o Estado (equivalente a ir ao confessionário e "bufar" tudo ao padreco)

    Amén !

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  9. E foi assim que tudo aconteceu...
    Só que, contado como o fazes, percebe-se melhor...

    Um abraço.

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  10. Fernando, foi assim que tudo aconteceu até ao meu penúltimo parágrafo.
    O problema é que eu suspeito que estamos prestes a entrar na fase descrita no meu último parágrafo.

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  11. Eduardo, pela 1ª vez ouvi o Passos a falar em directo, no Fórum da TSF... vai daí fiquei boquiaberta! O homem não diz uma para a caixa! acredita que não respondeu consistentemente a nada!
    Quando lhe perguntaram, a pessoa disse até, que não costumava votar PSD e que queria saber com quem ía este Partido formar Governo, pois era muito importante, ele simplesmente disse que tinha a equipa dentro da sua cabeça... textual!! e que não podia dizer, até porque tinha várias opções para cada pasta! Ficou bem esclarecida... a pessoa! CREDO!!! é isto o nosso País?! Este é o Partido que faz oposição ao PS?! ai que a coisa está mesmo negra! Nunca pensei que fosse tão mau!...

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  12. Um retrato bem feito da actual situação.
    Se haviam pessoas com duvidas agora ficaram com dívidas e vão sucumbindo unas atrás das outras...
    Não tenho mais palavras antes que comecem a criar débito pelo que dizemos.

    Obrigado amigo pelo carinho deixado no lidacoelho
    Bem haja.
    Este abraço de amizade é um presente irrecusável.

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  13. Amiga Fada, o que é que tu querias que o homem fizesse ou dissesse ?

    Há que não esquecer que estamos na presença de alguém que entrou para a JSD aos 16 ou 17 anos, por lá se manteve "subindo a pulso" na hierarquia da sua querida "J".
    Atingido o patamar de líder da "J", lá apareceu o convitezinho para deputado da AR.
    Como é obvio, com tanto trabalho entre maõs, sobrou-lhe pouco tempo para se instruir, o que levou a que acabasse a sua licenciatura aos 37 anos.
    Mais vale tarde que nunca !
    Depois, e como já parecia mal ainda nunca ter tido um verdadeiro trabalho ... perdão ! queria dizer emprego, lá conseguiu, com muita dificuldade e aos 41 anos, um empregozinho numa firma onde, vejam lá vocês estas coincidências, o patrão era o seu Pai político, Ângelo Correia (histórico líder do PSD).
    Lá trabalhou (?) durante 2 anitos, mas como aquilo era coisa chata, optou por dar umas aulinhas, o que também fica sempre bem no Curriculum !!!

    E eu pergunto ?

    - Como é que um indíviduo destes pode, em consciência, achar-se capaz de gerir um País ?

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  14. Luís, a situação é de tal forma complexa que, confesso, não consigo vislumbrar o que será isto daqui a 1 ano.
    É que já nem consigo traçar cenários negativos ... já nem os negativos consigo traçar, bolas !!! porque me parece que por mais maus que sejam esses meus traços, a realidade mostrar-se-á sempre pior.

    Duma coisa não tenho dúvidas, só não votando na troika PS/PSD/CDS podemos alimentar alguma esperança para o futuro.
    Disso não me restam dúvidas.

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  15. Coitado do Zé! É sempre quem paga as favas. Quem leva chibatada. Quem mais trabalha. Quem é enganado facilmente, dada a sua situação de Zé.
    Gostei da história picaresca e simbólica. Vale bem um vinte!
    Mas será que o Zé Povinho anda assim tão "tapado" pelos ditos do Patrão?
    Tenho esperança que, desta vez, o nosso Zé lhe faça o seu célebre manguito!E que manguito!
    Jinhos.

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  16. Banalidades, agora que já não me dá aulas é que me quer dar vintes ! bah !

    eheheheheh

    Eu também tenho essa esperança de que o Zé abra a pestana, até porque a esperança é a última a morrer, mas que tarda, isso tarda.

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  17. Não quero te desanimar, mas o Brasil, meu país, na última vez que recorreu ao FMI, ficou 20 anos parado no tempo.Espero imensamente que Portugal não tenha que passar por isso...

    Bjs

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  18. Olá Parole, seja bem vinda aqui a este meu "cantinho".
    Sabe Parole, o FMI já cá tinha estado em 1983, e só não sentimos tanto a sua presença porque em 1985 Portugal entrou para a União Europeia e as ajudas que chegaram acabaram por camuflar as dificuldades que iríamos passar.
    Só que desta vez já não há UE para ajudar ... antes pelo contrário !

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