11 de março de 2010

Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?

(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

6 comentários:

  1. Grande texto de O'Neill Eduardo!
    Infelizmente, o Mundo está cheio desses seres maléficos e desavergonhados, que à falta de Príncipios, como Rigor, Altruísmo, Honra, Carisma, Verdade, são aqueles que tem falta de escrúpulos e "calcam" os outros, (acredito que as maiorias assim não sejam, ainda este ainda... com reticências, porque está a mudar muito depressa) para chegar aos seus fins. Não olham a meios para atingir fins. O Mundo está como está, à custa deles... é por isso que cito imensas vezes a frase de Luther King: "Não me preocupa o grito dos maus, mas sim o silêncio dos bons".
    Esses conjuntamente com as tecnologias inovadoras, fartam-se de passar mensagens de violência e futilidades. Os anúncios à banca na rádio estão cada vez mais escabrosos e a publicidade em geral, com mensagens subliminares. Os filmes para todos, têm de meter violência senão já não vende. Tudo isto vem desses homens, que sobem na vida à custa do sangue e suor dos outros, dos bons! Esses são cada vez mais, há um em cada esquina, esses são os os que te sorriem e viras as costas, espetam-te uma faca. Esses são os que estão a dominar o Mundo e a levá-lo à agonia lenta! e Assim vai o Mundo nas mãos de "coisas" assim...

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  2. Fada, por muito que me custe, tenho de reconhecer que tens razão, e que tudo quanto dizes, não tem nada de exagerado.
    Adoro este texto, aliás, adoro O'Neill, mas este em particular toca-me fundo, porque é algo que, miseravelmente, retrata o quotidiano.

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  3. Toca-te fundo, Eduardo e a mim... nem calculas, amigão... Gosto muito de ti :)

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  4. Meu caro, notável escolha mas acho que hoje em dia existem, isso sim, mais sonsos!

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  5. Ele há os sonsos, ela há os convencidos, ele há os corruptos, ele há os lambe-botas ...
    Começam a rarear é as boas pessoas !

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